RKO Pictures – Um grande de Hollywood que quase desapareceu

 


RKO Pictures é um estúdio de cinema americano que já foi um dos 5 grandes de Hollywood durante várias décadas, mas que entrou em declínio e quase desapareceu. Alias, RKO foi um grande estúdio durante a era de ouro do cinema, sendo responsável por inúmeros sucessos que definiram o cinema. A RKO é reconhecida por seus musicais estrelados por Fred Astaire e Ginger Rogers durante os anos 30. O estúdio também atuou fortemente nos gêneros de comedia maluca e terror de baixo orçamento. A RKO é responsável por dois dos filmes mais famosos da história do cinema: Cidadão Kane do produtor/diretor/astro Orson Welles, e o grande sucesso King Kong. Outro filme histórico do estúdio é a coprodução A Felicidade Não Se Compra.

RKO – a fundação

Em 1927 a Warner Bros lançou o primeiro filme falado do cinema sendo a pioneira. Isso fez com que todos os estúdios passassem a correr atrás de converter seus filmes também para áudio. A Rádio Corporation of America ou simplesmente RCA, observando o mercado tinha desenvolvido um avançado sistema de som em película e queria entrar no mercado, mas os grandes estúdios Warner e Fox usavam a tecnologia sonora da Western Electric da AT&T, e MGM, Paramount e Universal se encaminhavam para o mesmo. A RCA então decidiu comprar um pequeno estúdio chamado FBO e usar seu sistema de som ali. Ao mesmo tempo iniciou negociações com a Keith-Albee-Orpheum ou KAO, uma rede cinemas. Algum tempo depois finalmente a FBO e a KAO se fundiram e assim nascia a Radio-Keith-Orpheum Corp, ou RKO Corp, com a RCA sendo sua acionista majoritária e controladora.

RKO Corp. – A era RCA


A RKO Corp. nomeou sua divisão de cinema como RKO Radio Pictures e com essa marca lançava suas produções. 
Para promover os filme do novo estúdio, a RCA que nessa época também era a dona da rede de rádios NBC (que mais tarde daria origem a rede de tv de mesmo nome), criou um programa chamado a hora RKO que serviu para apresentar os filmes do estúdio para o público. Em 1929 a RKO lançou musicais como alguns de seus primeiros filmes e logo conseguiu emplacar sucessos de público e crítica. Os sucessos seguiram, mas em 1931 os musicais entraram em um declínio e era preciso mudar. Ainda nesse mesmo ano a RKO comprou a Pathé, que inicialmente era uma divisão do estúdio francês, mas depois se tornou independente. Nesse período o estúdio investiu em filmes de em filmes de faroeste que eram baratos e rentáveis e comedias que também geraram muito lucro. RKO foi responsável por revelar a estrela Katharine Hepburn nessa época. Em 1933 era lançado um dos seus maiores sucessos, King Kong, um filme de terror e ação. Criado pelo produtor e diretor Merian C. Cooper o filme trouxe o icônico personagem King Kong e rendeu diversos filmes sobre ele. Infelizmente a RKO viria a perder os direitos sobre King Kong décadas mais tarde devido a problemas financeiros e de gestão. O astro Fred Astaire, conhecido como um grande dançarino, ator, cantor e músico, também foi revelado pela RKO. O estúdio seguiu investindo em filmes de comédia que rendiam bons retornos.

RKO Corp. – Novos acionistas

Os irmãos Rockefeller compraram uma participação considerável na RKO em meados de 1933. Já em 1935 o bilionário industrial Floyd Odlum comprou aproximadamente 30% da RKO, enquanto a RCA reduzia sua participação a 31% aproximadamente. A partir de 1936 a RKO se tornou a distribuidora das animações da Walt Disney, compartilhando o grande sucesso de suas animações. Ao mesmo tempo o estúdio seguiu com novos sucessos apesar de que alguns apontavam um certo declínio na qualidade das produções. Com nossos acionistas também vieram trocas nas posições mais altas do estúdio e novas metas e rumos. Novos sucessos vieram nessa época, com o maior deles sendo cidadão Kane, mas infelizmente o filme não rendeu lucro o bastante. Os prejuízos se seguiram com alguns filmes seguintes e em 1942 levaram a demissão do presidente do estúdio. Nesse momento Floyd Odlum aproveitou para assumir o controle da RKO de vez e promoveu uma nova reformulação no comando. No ano seguinte, 1943 ele comprou as participações da RCA e dos irmãos Rockefeller no estúdio se tornado seu maior acionista. Mas tudo isso foi benéfico para o estúdio que viu seus lucros aumentarem rapidamente, retomando com vários sucessos. De todos os estúdios grandes da época a RKO costumava ser a que menos se arriscava, lançando muitos filmes mais baratos por ano, e assim conseguindo obter bons lucros. O estúdio também foi responsável por iniciar e difundir o estilo clássico do noir no cinema. 1946 foi um ano altamente lucrativo para a RKO. Aproveitando o bom momento, Floyd Odlum vendeu 40% de suas ações no estúdio nesse ano para um grupo de investidores. Em 1947 vieram noticias ruins com quedas nos lucros e problemas externos que fizeram Floyd Odlum colocar suas ações a venda.

RKO Pictures Corp. – A era Howard Hughes



Em 1948 o excêntrico magnata da aviação Howard Hughes comprou as ações de Floyd Odlum e assumiu o controle do estúdio, marcando o seu declínio e uma de suas piores fases. Rapidamente membros do topo pediram demissão por discordâncias com Hughes, enquanto que ele demitia dezenas de funcionários chegando ao ponto de o trabalho no estúdio ser paralisado por 6 meses. Ele também cancelou vários projetos a ponto de o estúdio praticamente não ter lançamentos em 1948 e amargar um grande prejuízo. Nessa época estava acontecendo um embate entre o governo federal e os 5 grandes estúdios que controlavam redes de cinemas. A RKO de Hughes acabou fechando um acordo com o governo federal e concordou em dividir a sua empresa em duas, a RKO Pictures Corp. e RKO Theatres Corp, seprando assim os negócios de produção e de exibição de cinema. Embora ainda tenha mantido o controle de ambas as empresas nos próximos anos isso acabou sendo um golpe nos outros 4 grandes estúdios que acabaram sendo obrigados a fazer o mesmo. A RKO voltou a operar em 1949, mas com uma redução em seus lançamentos de 40 em 1947 para apenas 12 naquele ano. Sob Hughes o estúdio viu mais fracassos do que sucessos, e muitos desses filmes custando altos orçamentos. Além disso a interferência constante de Hughes fazia muitos diretores e produtores se demitirem. Ainda assim produções noir continuavam sendo lançados e fazendo sucesso com lucro. Mas a administração de  Hughes era caótica de mais para o estúdio, com ele chegando a vender e recomprar suas ações em poucos meses. Com toda essa bagunça vivida na RKO a Disney encerrou seu contrato de distribuição em 1954. Ao mesmo tempo os acionistas menores da RKO processaram Hughes por má administração e perdas financeiras. Hughes tentou comprar as ações de todos os acionistas para se tornar o único dono, mas Floyd Odlum que ainda detinha uma pequena percentagem conseguiu bloquear o negócio. Diante do impasse Hughes acabou vendendo o estúdio para General Tire and Rubber Company em 1954 encerrando assim sua caótica administração do estúdio. A historiadora Betty Lasky descreve a relação de Hughes com a RKO como uma destruição sistemática de sete anos.

RKO – A era General Tire

A General Tire and Rubber Company assumiu então o controle do estúdio em 1954. A empresa já era dona de estações de rádio espalhas pelos Estados Unidos, além de emissoras locais de televisão, que faziam parte da divisão conhecida como General Teleradio. A General Tire havia começado com produção e venda de pneus, mas depois diversificou seus negócios. Thomas F. O'Neil, que era filho do fundador da General Tire, e administrador da General Teleradio (renomeada para RKO Teleradio) viu o potencial do catalogo de filmes da RKO para exibição em suas emissoras de tv e para venda para outras emissoras menores conquistando lucro e mudando esse mercado. Os novos donos também fizeram grandes investimentos para reerguer o estúdio, com novos lançamentos nos anos seguintes, mas a falta de grandes sucessos e a pouca paciência dos novos donos logo resultou em um verdadeiro desmonte da RKO. Suas unidades internacionais de distribuição, como no Japão e Reino Unido foram vendidas e várias propriedades nos Estados Unidos, estúdios e terrenos de produção também. O estúdio continuou lançando filmes até 1959 encerrando a produção depois disso. A General Tire então renomeou a RKO Teleradio para RKO General e fundiu todos os seus ativos de entretimento nessa nova empresa.

RKO General – novos negócios



Nessa fase inicial o estúdio de cinema havia sido fechado e a empresa se concentrou apenas nas emissoras de tv e radio que possuía. Ainda mantendo o acervo de filmes, series, curtas metragens e demais produções da RKO, a empresa as exibia em seus canais de tv e continuava vendendo o direito de exibição para outras emissoras. Todas as emissoras de tv da RKO general eram independentes, ou seja, não pertenciam a nem uma rede de tv. Já no radio, algumas de suas estações eram líderes de audiência em suas áreas, e outras tinham grande audiência nacional. A empresa seguiu dessa forma por quase 20 anos, mas em 1978 ela decidiu retornar a o ramo que havia lhe dado o nome, ou seja, produção de cinema, e dessa forma foi lançada a RKO Pictures Inc. Inicialmente voltando com coprodutora, e depois voltando ao ramo em definitivo. Com distribuição de outros estúdios, como Paramount e Universal, era o retorno da RKO ao cinema. A empresa conseguiu emplacar alguns sucessos nessa época, mas ao mesmo tempo enfrentava problemas com a comissão federal de comunicação ou FCC ( Federal Communications Commission). Essa batalha levou a RKO General a vender gradualmente as suas emissoras de tv e rádio. Em 1987 a RKO General vendeu o estúdio RKO Pictures com todo o seu acervo de filmes, series, curtas, direitos remanescentes e propriedade intelectual para a Wesray Capital Corporation. A RKO general seguiu existindo até o inicio dos anos 90 quando vendeu suas últimas estações de rádio e tv.

RKO Pictures – até os dias atuais

Wesray Capital Corporation manteve o controle do estúdio por 2 anos e em 1989 o vendeu para a atriz e herdeira Dina Merrill, e seu marido, o produtor Ted Hartley. Dessa forma o estúdio voltou a operar de forma independente, mas agora muito menor do que no passado. Ainda assim novos filmes foram lançados nos anos seguintes, com algumas coproduções com outros estúdios também. Em 1992 a RKO voltou a distribuir seus filmes nos Estados Unidos. Ao longo dos anos seguintes a RKO coproduziu filmes e fez remakes de seu acervo clássico, como o Poderoso Joe de 1998. A partir de 2010 os filmes lançados pela RKO se tornaram mais esporádicos e em 2017 Dina Merrill faleceu, com mais nem um filme desde então tendo sido lançado. Em 2025 Ted Hartley faleceu a os 100 anos de idade, enquanto a RKO foi vendida a Concord, uma empresa de entretenimento independente. Os planos da nova dona são de que a RKO volte a produzir remakes de seu acervo clássico. Agora resta esperar pelos próximos capítulos dessa turbulenta história, e o futuro de um dos estúdios mais famosos da era de ouro do cinema, que hoje não passa de uma sombra do passado.



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